terça-feira, 28 de abril de 2015

Desafios da televisão e do vídeo à escola

Por JOSÉ MANUEL MORAN*

Introdução[1]


Estamos deslumbrados com o computador e a Internet na escola e vamos deixando de lado a televisão e o vídeo, como se já estivessem ultrapassados, não fossem mais tão importantes ou como se já dominássemos suas linguagens e sua utilização na educação.

A televisão, o cinema e o vídeo – os meios de comunicação audiovisuais – desempenham, indiretamente, um papel educacional relevante. Passam-nos continuamente informações, interpretadas; mostram-nos modelos de comportamento, ensinam-nos linguagens coloquiais e multimídia e privilegiam alguns valores em detrimento de outros.

A informação e a forma de ver o mundo predominantes no Brasil provêm fundamentalmente da televisão. Ela alimenta e atualiza o universo sensorial, afetivo e ético que crianças e jovens – e grande parte dos adultos – levam a para sala de aula. Como a TV o faz de forma mais despretensiosa e sedutora, é muito mais difícil para o educador contrapor uma visão mais crítica, um universo mais abstrato, complexo e na contramão da maioria como a escola se propõe a fazer.

A TV fala da vida, do presente, dos problemas afetivos – a fala da escola é muito distante e intelectualizada – e fala de forma impactante e sedutora – a escola, em geral, é mais cansativa. O que tentamos contrapor na sala de aula, de forma desorganizada e monótona, aos modelos consumistas vigentes, a televisão, o cinema, as revistas de variedades e muitas páginas da Internet o desfazem nas horas seguintes. Nós mesmos como educadores e telespectadores sentimos na pele a esquizofrenia das visões contraditórias de mundo e das narrativas (formas de contar) tão diferentes dos meios de comunicação e da escola.

Na procura desesperada pela audiência imediata, fiel e universal, os meios de comunicação hiper-exploram nossas emoções, fantasias, desejos, medos e aperfeiçoam continuamente estratégias e fórmulas de sedução dependência. Passam com incrível facilidade do real para o imaginário, aproximando-os em fórmulas integradoras, como nas telenovelas e nos reality-shows como o Big-Brother e semelhantes.

Diante desse panorama, os educadores costumamos contrapor a diferença de funções e da missão da televisão e da escola. A TV somente entretém enquanto que a escola educa. Justamente porque a televisão não diz que educa o faz de forma mais competente. Ela domina os códigos de comunicação e os conteúdos significativos para cada grupo: os pesquisa, os aperfeiçoa, os atualiza. Nós educadores fazemos pequenas adaptações, damos um verniz de modernidade nas nossas aulas, mas fundamentalmente continuamos prendendo os alunos pela força e os mantemos confinados em espaços barulhentos, sufocantes, apertados e fazendo atividades pouco atraentes. Quem educa quem a longo prazo?

Como a televisão se comunica


Os meios de comunicação, principalmente a televisão, desenvolvem formas sofisticadas multidimensionais de comunicação sensorial, emocional e racional, superpondo linguagens e mensagens, que facilitam a interação, com o público. A TV fala primeiro do "sentimento" – o que você sentiu", não o que você conheceu; as ideias estão embutidas na roupagem sensorial, intuitiva e afetiva.

A televisão e o vídeo partem do concreto, do visível, do imediato, próximo, que toca todos os sentidos.

Mexem com o corpo, com a pele, as sensações e os sentimentos – nos tocam e "tocamos" os outros, estão ao nosso alcance através dos recortes visuais, do close, do som estéreo envolvente.
Isso nos dá pistas para começar na sala de aula pelo sensorial, pelo afetivo, pelo que toca o aluno antes de falar de ideias, de conceitos, de teorias. Partir do concreto para o abstrato, do imediato para o mediato, da ação para a reflexão, da produção para a teorização.

A eficácia de comunicação dos meios eletrônicos, em particular da televisão, se deve também à capacidade de articulação, de superposição e de combinação de linguagens diferentes – imagens, falas, música, escrita - com uma narrativa fluida, uma lógica pouco delimitada, gêneros, conteúdos e limites éticos pouco precisos, o que lhe permite alto grau de entropia, de flexibilidade, de adaptação à concorrência, a novas situações. Num olhar distante tudo parece igual, tudo se repete, tudo se copia; ao olhar mais de perto, por trás da fórmula conhecida, há mil nuances, detalhes que introduzem variantes adaptadoras e diferenciadoras.

A força da linguagem audiovisual está em que consegue dizer muito mais do que captamos, chegar simultaneamente por muitos mais caminhos do que conscientemente percebemos e encontra dentro de nós uma repercussão em imagens básicas, centrais, simbólicas, arquetípicas, com as quais nos identificamos ou que se relacionam conosco de alguma forma. [2]

Televisão e vídeo combinam a dimensão espacial com a sinestésica, ritmos rápidos e lentos, narrativas de impacto e de relaxamento. Combinam a comunicação sensorial com a audiovisual, a intuição com a lógica, a emoção com a razão. A integração começa pelo sensorial, o emocional e o intuitivo, para atingir posteriormente o racional. Exploram o voyeurismo, e mostram até a exaustão planos, ângulos, replay de determinadas cenas, situações, pessoas, grupos, enquanto ignoram a maior parte do que acontece no cotidiano. Mostram a exceção, o inusitado, o chocante, o horripilante, mas também o terno – um bebê desamparado, por exemplo. Destacam os que detêm atualmente algum poder – político, econômico ou de identificação/projeção: artistas, modelos, ídolos esportivos. Quando o perdem, desaparecem da tela.[3]

A organização da narrativa televisiva, das situações, ideias e valores é muito mais flexível e contraditória do que a da escola. As associações são feitas por semelhança, por contraste, muitas vezes estéticos. As temáticas evoluem de acordo com o momento, a audiência, o impacto.

Os temas são pouco aprofundados, explorando os ângulos emocionais, contraditórios, inesperados. Passam a informação em pequenas doses (de forma compactada), organizadas em forma de mosaico (rápidas sínteses de cada assunto) e com apresentação variada (cada tema dura pouco e é ilustrado).

A televisão estabelece uma conexão aparentemente lógica entre mostrar e demonstrar. Mostrar é igual a demonstrar, a provar, a comprovar. Uma situação isolada converte-se em situação paradigmática, padrão, universal. Ao mesmo tempo, o não mostrar equivale a não existir, a não acontecer. O que não se vê, perde existência.[4]

Estratégias de utilização da TV e do vídeo


Diante dessas linguagens tão sofisticadas a escola pode partir delas, conhecê-las, ter materiais audiovisuais mais próximos da sensibilidade dos alunos. Gravar materiais da TV Escola, alguns dos canais comerciais, dos canais da TV a cabo ou por satélite e planejar estratégias de inserir esses materiais e atividades que sejam dinâmicas, interessantes, mobilizadoras e significativas.[5]

A televisão e a Internet não são somente tecnologias de apoio às aulas, são mídias, meios de comunicação. Podemos analisá-las, dominar suas linguagens e produzir, divulgar o que fazemos. Podemos incentivar que os alunos filmem, apresentem suas pesquisas em vídeo, em CD ou em páginas WEB - páginas na Internet. E depois analisar as produções dos alunos e a partir delas ampliar a reflexão teórica.

A escola precisa observar o que está acontecendo nos meios de comunicação e mostrá-lo na sala de aula, discutindo-o com os alunos, ajudando-os a que percebam os aspectos positivos e negativos das abordagens sobre cada assunto. Fazer re-leituras de alguns programas em cada área do conhecimento, partindo da visão que os alunos têm, e ajudá-los a avançar de forma suave, sem imposições nem maniqueísmos (bem x mal).[6]

Conclusão


A televisão, o cinema, a Internet e demais tecnologias nos ajudam a realizar o que já fazemos ou que desejamos. Se somos pessoas abertas, nos ajudam a comunicar-nos de forma mais confiante, carinhosa e confiante; se somos fechadas, contribuem para aumentar as formas de controle. Se temos propostas inovadoras, facilitam a mudança.

Educar com novas tecnologias é um desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade. Temos feito apenas adaptações, pequenas mudanças. Agora, na escola, no trabalho e em casa, podemos aprender continuamente, de forma flexível, reunidos numa sala ou distantes geograficamente, mas conectados através de redes de televisão e da Internet. O presencial se torna mais virtual e a educação a distância se torna mais presencial. Os encontros em um mesmo espaço físico se combinam com os encontros virtuais, a distância, através da Internet e da televisão.

Estamos aprendendo, fazendo. Os modelos de educação tradicional não nos servem mais. Por isso é importante experimentar algo novo em cada semestre. Fazer as experiências possíveis nas nossas condições concretas. Perguntar-nos no começo de cada semestre: “O que estou fazendo de diferente neste curso? O que vou propor e avaliar de forma inovadora?” Assim, pouco a pouco iremos avançando e mudando.

Podemos começar por formas de utilização das novas tecnologias mais simples e ir assumindo atividades mais complexas. Experimentar, avaliar e experimentar novamente é a chave para a inovação e a mudança desejadas e necessárias.

Caminhamos para uma flexibilização forte de cursos, tempos, espaços, gerenciamento, interação, metodologias, tecnologias, avaliação. Isso nos obriga a experimentar pessoal e institucionalmente a integração de tecnologias audiovisuais, telemáticas (Internet) e impressas.

Vivemos uma época de grandes desafios no ensino focado na aprendizagem. E vale a pena pesquisar novos caminhos de integração do humano e do tecnológico; do sensorial, emocional, racional e do ético; do presencial e do virtual; de integração da escola, do trabalho e da vida.

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[1] Texto de apoio ao programa Salto para o Futuro da TV Escola no módulo TV na Escola e os Desafios de Hoje. no dia 25/06/2002. Disponível em <http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/tedh/tedhtxt2b.htm2>

[2] Um livro importante para entender as linguagens e formas de utilização do vídeo é o de Joan FERRÉS. Vídeo e Educação. 2a ed., Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

[3] Maiores informações em MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. São Paulo, Brasiliense, 1988.

[4] Para entender as mudanças da cultura audiovisual, recomendo o livro Os novos modos de compreender de Pierre BABIN e Marie KOULOUMDJIAN. São Paulo, Paulinas, 1989.

[5] No meu artigo O vídeo na sala de aula apresento algumas situações e formas de utilizar o vídeo. Pode ser acessado em www.eca.usp.br/prof/moran/vidsal.htm

[6] A utilização inovadora da televisão, Internet e outras tecnologias na educação pode ser aprofundada no livro Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica de MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda. 12 a ed., Campinas, Papirus, 2006.



*José Manuel Moran é especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância.

sábado, 18 de abril de 2015

Celso Antunes e os Quatro Pilares da Educação

Celso Antunes fala sobre os quatro pilares da educação que devem ser ensinados dentro da sala de aula.


Celso Antunes é um educador brasileiro. Mestre em Ciências Humanas e especialista em inteligência e cognição.

Vídeo indicado pelas alunas Aline Mayara Rodrigues, Larissa de Oliveira Maciel Morais e Wivian Andrade de Souza.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Guiomar de Grammont: Ler devia ser proibido

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Por GUIOMAR DE GRAMMONT*

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Alem disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.


*Guiomar de Grammont é mineira de Ouro Preto, historiadora, filósofa e escritora. Já publicou contos, antologias, livros sobre historiografia e o romance A casa dos espelhos.
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Fonte: Trecho do livro, PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-3.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Utilizando o Blog como Webfólio

por MARY GRACE MARTINS e MÁRCIO ZENKER*

Blog vem da abreviação de Weblog: web (tecido, teia, Internet) e log (diário de bordo). É um recurso que possibilita publicar textos, imagens e em alguns casos até mesmo áudio e vídeo. Cada publicação realizada é chamada de post.

Uma das principais características e que o torna colaborativo é o espaço para comentário dos participantes. Alguns blogs disponibilizam também o recurso de trackback, uma tecnologia que busca e publica no blog do usuário as referências realizadas em outros blogs ao seu post. Estes recursos são de fundamental importância para os “blogueiros”(como são chamados os criadores de blogs) pois revela o que os visitantes acham de sua página.

Para Gutierrez (2003, on-line) um aspecto importante que difere os blogs de sites comuns é justamente a “ facilidade com que podem ser criados, editados e publicados, sem a necessidade de conhecimentos técnicos especializados.”

Há também a possibilidade de criação de blog colaborativo. Ainda que a maioria dos serviços tenha sido pensada para produções individuais, é possível inscrever mais de um aluno ou até mesmo a turma toda em um mesmo blog.

Dentre as diversas razões para trabalharmos com estes recursos na educação, destacamos as seguintes:
  • Os alunos percebem que podem produzir algo que será disponibilizado para qualquer pessoa, assim como tem feito alguns artistas, jornalistas e outros profissionais famosos;
  • Possibilita um trabalho interdisciplinar;
  • Integra o ensino, aprendizagem e avaliação;
  • Propicia uma visão holística (relação parte e todo);
  • Incentiva o aluno a refletir sobre o seu próprio trabalho;
  • Permite que alunos e professores tenham dimensão do processo de construção e aprendizagem;
  • Melhora a auto-estima dos alunos;
  • Incentiva os alunos a valorizarem e divulgarem sua produção;
  • Desenvolve habilidades de leitura, escrita, análise e síntese;
  • Não é uma atividade exclusivamente escolar, o que a torna ainda mais interessante para os alunos;
  • Os pais podem ter acesso e dessa forma passam a valorizar mais o que os filhos fazem na escola.
Após conhecer alguns blogs, recursos e possibilidades o professor pode optar por diferentes formas de trabalho:
  • Cada aluno pode ser incentivado a manter o seu blog pessoal e periodicamente ter um tempo disponibilizado pelo professor, para que possa atualizá-lo;
  • Os alunos podem criar e manter um blog individual ou coletivo sobre um determinado tema/projeto;
  • Cada turma pode ter um blog e a cada semana um responsável atualiza, registrando o que for mais significativo para o grupo.
Caso os alunos tenham seus blogs pessoais, é importante que o educador dê liberdade para que publiquem também assuntos que não estão diretamente relacionados à escola, uma vez que os blogs também têm essa característica informal.

Periodicamente esses blogs poderão ser utilizados para avaliação conjunta do processo. Esse exercício é importante para que alunos e educadores reflitam sobre seus objetivos e metas para continuidade do(s) projeto(s) propostos.
  • Alunos podem reunir-se em pequenos grupos, explorar as produções dos colegas, levantar questões e comentários a respeito de suas produções, opiniões ou atividades desenvolvidas;
  • Professores podem lançar debates coletivos buscando compreender tanto as necessidades levantadas pelos alunos, quanto suas sugestões para melhoria e continuidade do projeto;
  • As reflexões e debates realizados em sala de aula ou por meio das ferramentas de comunicação dos blogs, podem ser sintetizadas para um debate também com outros educadores. Em parceria, os professores também conseguirão soluções para aperfeiçoar sua prática pedagógica.
Combinar os debates coletivos e/ou em pequenos grupos em sala de aula com o registro de comentários e até mesmo listas de discussão, contribuirá não apenas para garantir a participação de todos os alunos, mas como uma forma de propiciar um momento ainda mais reflexivo de cada aluno com sua própria produção e também com a produção de seus parceiros.

Essa forma de trabalho não diminui a importância do professor, que deve ser o principal mediador no processo de aprendizagem, no entanto, possibilita que os alunos percebam que também é possível ir em busca do próprio conhecimento e aprender com os colegas, por meio da colaboração e não apenas com o professor.

Quando os alunos utilizam a Internet para publicar suas produções, além de socializar o conhecimento descoberto e desta forma sentirem-se mais valorizados, possibilitam que seus educadores tenham acesso aos projetos desenvolvidos.
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BERTOCHI, Sonia. Webfólio: o portfólio da era digital. Portal Educarede, 2004. Disponível em http://www.educarede.org.br 
DUTRA, Í. M.; LACERDA, Rosália Procasko. Tecnologias na Escola: algumas experiências e possibilidades. Renote Revista Novas Tecnologias na Educação, Porto Alegre-RS, v. 1, n. 1, 2003. Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/renote/fev2003/artigos/italo_tecnologias.pdf 
GUTIERREZ, Suzana. Weblogs e educação: contribuição para a construção de uma teoria. Revista Novas Tecnologias na Educação - Renote. Porto Alegre: CINTED-UFRGS, v. 3, n. 1, mai. 2005. Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/renote/maio2005/artigos/a15_welogs.pdf.
HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura Visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre : Artmed, 2000
MORAN, José Manual. As possibilidades das redes de aprendizagem. ECA/USP, 2005. Disponível em: http://www.eca.usp.br/prof/moran/ 
SHORES, Elizabeth; GRACE, Cathy. Manual de Portfólio: Um guia passo a passo para o professor. Porto Alegre. Artes Médicas, 2000.

Fonte: Direcional Educador. Acesso em: 5 mar. 2015.

* Mary Grace Martins é pedagoga pela Faculdade de Educação da USP, atua na área de formação de professores para uso da tecnologia e ensino à distância. É consultora pedagógica do Instituto Crescer para a Cidadania e também da Microsoft Educação. 

Márcio Zenker é psicólogo pela USP com pós-graduação em Recursos Humanos pela FGV. Foi professor da FGV em Psicologia Aplicada. É professor de graduação, MBAs e Pós-Graduação da UNISA, UNASP, UniFEI e SENAC. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Reflexão sobre as novas tecnologias educacionais



O Prof. Sérgio Américo Boggio, Diretor de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes, mostra como a relação do ser humano com os meios digitais nos trouxe tanto habilidades diferentes como algumas consequências delicadas.

Afinal, o que é Tecnologia Educacional?

por CASSIANO ZEFERINO DE CARVALHO NETO e MARIA TAÍS DE MELO*

Nunca se falou com tanta frequência, e de modo tão genérico e impreciso, em tecnologia educacional.

Com a chegada da informática nas escolas, uma expectativa tornou-se crescente: os computadores finalmente vieram para revolucionar o ensino?

No entanto, ao longo dos últimos - e poucos! - anos que temos de experiência com as mídias e software disponíveis fomos descobrindo, muitas vezes a duras penas, que não basta ter computadores e software na escola: é preciso algo mais, inclusive de natureza diferente desta mídia, por mais versátil que ela possa parecer à primeira vista, para que se produzam ganhos significativos nos processos educacionais, contando com tais recursos.

A imprecisão e impropriedade como a que se verifica na nomeação de um conceito como o de Tecnologia Educacional não é meramente uma questão semântica. Passa, afinal de contas, a se constituir em um reducionismo, obstruindo possibilidades efetivas na elaboração de aulas e processos educacionais mais consistentes e ricos.

Uma parte de tudo aquilo que não é tecnologia educacional.


Computador não é tecnologia educacional. Software não é tecnologia educacional. Livro não é tecnologia educacional, e apostila também não. Sala com computadores PC, com ou sem ar condicionado, não é tecnologia educacional. Discurso sofisticado não é, necessariamente, Tecnologia Educacional. Videocassete não é tecnologia educacional também, nem o enferrujado projetor de slides que quase ninguém mais usa. Giz e apagador não são tecnologias educacionais em extinção, nem o pobre quadro-negro também o é...

Afinal, então: o que é tecnologia educacional?


Tecnologia Educacional ou Tecnologias Educacionais: apenas uma questão semântica, ou o estado de criação e aplicação de uma arte?


Vamos descobrir algumas possíveis respostas a esta pergunta, ao longo de nossa jornada. Neste momento vamos propor uma questão para você, leitor (a).

Suponha que durante o final de semana tenhamos nos deparado com o seguinte problema:

“Durante uma visita ao sítio de alguns amigos somos incumbidos de acender o fogo para a churrasqueira. Já nos informaram onde está o álcool, a lenha e o fósforo. Por ser um dia de outono, venta forte. Apesar disso, vamos animadamente cumprir a importante e prazerosa missão, mas... tentamos acender o fogo de um jeito, e não conseguimos! Tentamos de outro e... também não conseguimos. Começamos a ficar incomodados e, já meio sem jeito, alguém nos pergunta se está tudo bem e dizemos que sim. Mas o vento continua soprando forte e o fogo não pega!. Agora já estamos impacientes. Como resolver o problema, efetivamente?”

Assim como nós, todas as vezes que alguém se depara com um problema – a menos que simplesmente o abandone – tende a buscar para ele alguma solução. Provavelmente devemos ter imaginado o que teria de ser feito para acender o fogo para o churrasco, apesar do forte vento dificultar nossa intenção. É possível que tenhamos pensado numa forma de envolver o carvão com jornal, proteger a chama do fósforo, perguntar para o dono da casa se havia álcool na forma de gel, enfim, tentamos e encontramos pelo menos uma solução satisfatória, embora não única, para o problema de dar início à queima do carvão. 
Utilizamos o exemplo acima para destacar que quando criamos uma solução para um problema construímos conhecimento. Se a solução mostra-se eficaz, para um número significativo de casos semelhantes, então estamos diante de uma tecnologia! O conhecimento é produzido como resposta a um problema, como menciona Gaston Bachelard , em sua obra O novo espírito científico. Uma tecnologia é uma solução elaborada que pode ser aplicada em situações-problema semelhantes. Assim já temos uma primeira pista e referência: tecnologia pode ser entendida como um sinônimo para solução, solução que pode ser aplicada a um problema ou a um conjunto deles.

Podemos também começar a perceber através deste simples exemplo que uma tecnologia está vinculada à solução de um problema e esta solução produz conhecimento. Deste modo – estamos buscando aqui apresentar o tema com simplicidade, embora fugindo de simplismos – é freqüente acontecer que o conhecimento científico, produzido como resposta a um dado problema acabe por estimular a criação de aplicações, viabilizadas através de novas tecnologias, isto é, soluções. A invenção da válvula eletrônica, por Lee de Forest, em 1905, por exemplo, foi a base para a criação do rádio que ocorreu poucos anos depois. O problema de enviar mensagens a grandes distâncias e de modo muito rápido foi resolvido pela tecnologia das radiocomunicações. Do mesmo modo, a lógica binária criada por Charles Babage, por volta de 1860, seria a base para a tecnologia da computação quase cem anos depois, tempo em que ninguém pode disso suspeitar.

Neste ponto nos enriquecerá conhecer e refletir sobre a etimologia da palavra Tecnologia: tecn(o) do gregotechno – de téchné ‘arte ou habilidade’, que se documenta em alguns compostos formados no próprio grego (como tecnologia) e em muitos outros introduzidos a partir do século XIX na linguagem erudita; logia - log(o) derivado do grego ‘palavra, estudo, tratado, conhecimento’ .

Pelo exposto, podemos inferir que uma tecnologia é uma solução, dentre outras tantas possíveis, a um dado problema ou conjunto deles. Portanto já começamos a perceber que não existe uma única tecnologia educacional, mas tecnologias, isto é soluções resultantes do enfrentamento de problemas. Tecnologia também denota, como a origem grega do termo referencia, o conhecimento de uma arte e será esta, para a Educação, a definição que melhor nos servirá de base para uma nova concepção operacional.


Tecnologia: aproximações sucessivas podem alcançar um ideal?


Para Thomas Alva Edison chegar a um tipo de filamento de lâmpada que não se queimasse muito rapidamente, por excessivo aquecimento devido à passagem de eletricidade, foi preciso levar em conta dois aspectos centrais: primeiro, retirar uma significativa quantidade de ar de dentro da ampola de vidro, já que o ar, por conter oxigênio, favorece a combustão; segundo: encontrar uma composição química que permitisse uma durabilidade bem maior do filamento, já que nas primeiras tentativas ele se queimava em poucos minutos. Eram esses os dois problemas básicos para serem enfrentados. Edison buscava por soluções; ao encontrá-las estaria produzindo conhecimento e conhecimento é a base para a criação de novas soluções, novas tecnologias.

Após mais de duas mil tentativas frustradas, porém não menos importantes na medida que o erro aproximava-o cada vez mais do acerto ele e sua equipe de trabalho chegaram a um ponto, o mais próximo possível do ideal: o filamento permanecera aceso por mais de 12 minutos! Estava criada a primeira lâmpada, e também se criava com ela a tecnologia de sua produção, ainda que em caráter artesanal. 

Uma tecnologia, em geral, conduz a soluções, as mais próximas possíveis daquilo que se pretende resolver, do ideal digamos. Esta é uma das razões pelas quais até hoje, ao longo da História, não se conheceu uma tecnologia definitiva, pois que ela se aproxima cada vez mais do ideal. 

Ao que parece não existe tecnologia absoluta, completa ou definitiva; sempre tem sido possível alcançar soluções cada vez melhores – no sentido de serem mais próximas da solução ideal de um problema – e esta característica central tende a permanecer. A partir do momento em que a primeira lâmpada permaneceu acesa por mais de dez minutos, tornou-se viável reproduzir outras tantas lâmpadas aproximadamente nas mesmas condições da inicial. A lâmpada que hoje ilumina o ambiente em que você se encontra tem um parentesco histórico direto com a primeira lâmpada criada, embora novas formas de produzir luz têm sido desenvolvidas, como por exemplo, através da tecnologia de lâmpadas a gás, uma solução mais eficiente, do ponto de vista do consumo de energia.

Embora novas soluções sejam encontradas, ao longo do tempo, nada se pode afirmar a respeito de sua permanência: outras soluções, mais eficazes, poderão vir a substituir as já existentes. Neste sentido as tecnologias buscam alcançar a solução ideal sem jamais, no entanto, a terem alcançado.


Tecnologias e Educação


Enquanto é relativamente fácil reproduzir uma lâmpada, a partir do domínio de uma tecnologia, o mesmo não se aplica ao universo social. A Educação trabalha no universo da diversidade, das individualidades, das subjetividades, das socializações. Pessoas não se produzem ou constroem como lâmpadas, é claro. Neste sentido, crítico, o conceito de tecnologia – enquanto solução a um determinado problema ou conjunto deles – deve ser ampliado e revisto na perspectiva educacional e é precisamente isto que vamos fazer a partir de agora, nos tópicos que seguem.


Construindo um Conceito para Tecnologia Educacional


Alguém já viu computador dando aula, sozinho, sem que, pelo menos, alguém o tenha ligado à tomada? Ao longo de sua carreira  já vimos uma lousa, quadro-negro, quadro-verde ou quadro-branco apresentando sozinho “a matéria”, sem que alguém a houvesse  elaborado antes? Em algum momento dos últimos vinte anos algum professor foi demitido do seu emprego só porque a escola comprou um videocassete? Um laboratório de ciências, totalmente equipado, mas completamente sem uso, trancafiado, ensina ciências para alguém? Um toco de giz percorre a lousa ensinando filosofia aos alunos?

Por mais absurdas ou hilariantes que possam parecer estas perguntas, elas escondem, na verdade, uma percepção equivocada: a de que “coisas” ensinam ou passam conhecimento. Para começar, já identificamos aqui um equívoco conceitual: chamar de tecnologia aos meios, aos recursos materiais, à mídia!

Recursos materiais, mídia, meios: vamos às suas origens?

Meio: do latim ‘médius’ – ‘médio’: que está no meio ou entre dois pontos.

A origem da palavra revela-se numa excelente pista para o que estamos buscando: um meio, por si só, é incapaz de promover ou de realizar uma ação de natureza educacional. Por quantas vezes acompanhamos a chegada de computadores nas escolas sem que, efetivamente, se tenha avançado em termos efetivos na qualidade de ensino? Para que serve um quadro, do preto ao branco, sem que o registro de ideias e outras informações sejam através dele veiculadas pelo professor e mesmo pelos alunos? E o que dizer do videocassete e da TV? Apostava-se que eles iriam substituir o professor na sala de aula...

Um laboratório de ciências, totalmente equipado, mas sem professores habilitados para dele fazerem uso, não passa de um “elefante branco” e um toco de giz, por si só, não viola a lei da gravidade: cai e não ensina filosofia, a menos que sua queda seja problematizada... Começamos aqui a construir um conceito amplo e crítico para a Tecnologia Educacional.

Neste primeiro ponto estamos falando dos meios, também chamados de mídias, que englobam todos os recursos materiais, mecânicos, elétricos, e eletrônicos, dentre outros, que se utilizam com fins educacionais. No inglês é comum utilizar o termo “hardware” (algo que é duro, as coisas físicas, em si, os corpos e objetos).

As mídias, como iremos chamá-las daqui para frente, são um dos pilares, um dos componentes essenciais, indispensáveis para a construção de um conceito melhor estruturado de Tecnologia Educacional. As mídias sejam elas quais forem, não são em si e nem por si mesmas, Tecnologia Educacional.

Computador, videocassete, lousa e retroprojetor, carteira e ar condicionado, dentre inúmeros outros meios, portanto, não são tecnologias educacionais. Podemos, no máximo, dizer que são instrumentos, ferramentas de trabalho ou recursos de apoio, mas vale repetir: não são tecnologia educacional e sim um dos componentes de uma possível Tecnologia Educacional.

A mídia, como a origem da palavra sugere, é algo que se coloca entre, no mínimo, dois participantes da dinâmica educacional: aluno-professor, aluno-aluno, professor-aluno, aluno-aluno, alunos-professor, dentre outras possibilidades de configuração.

A mídia não é a mensagem. Toda mídia, como meio que se interpõe e viabiliza a interação entre pessoas participantes de um processo educacional, não é o agente criativo; ela pode carregar mensagens em informações, mas, por si só, é incapaz de produzir conhecimento, pronto para ser oferecido.

Iremos, a seguir, investigar uma outra classe de componentes fundamentais na produção de uma Tecnologia Educacional: publicações e software.

A concepção, criação, produção e publicação de uma obra está invariavelmente ligada às ideias-conhecimento, ideias-concepção, numa palavra – aos paradigmas – de um ou de mais autores. Toda obra refletirá uma ideologia que a comporta e sustenta, como fruto social e histórico do seu tempo, bem como das concepções e visões de mundo de seu autor.

É bem verdade que há obras que se imortalizaram, na medida em que permaneceram vivas além do tempo histórico e social em que foram concebidas.

Outras, no entanto, tiveram um ciclo próprio de vida contribuindo mais ou menos significativamente num determinado período e depois se tornando obsoletas, porém sem jamais perder o seu valor histórico.

De qualquer modo, uma obra carrega valores e ideias, acalentam ideais e afeta, de variadas maneiras, o pensar a respeito do mundo e as ações humanas.

Obras carregam ideias e estas, se revistas ou mesmo indiretamente colocadas em prática, podem produzir mudanças, alterar rumos e pontuar a História, independentemente da dimensão de seus impactos. Da mesma forma que a mídia, como vimos, um componente fundamental da tecnologia educacional, a publicação é um outro componente e não é tecnologia educacional em si, ou por si, somente. 

Mais recentemente, com o advento e a disseminação da informática na educação, o software passou a ocupar um lugar importante e de destaque nos processos educativos. Um software – que não foi idealizado para apenas substituir um livro! - qualquer que seja ele, também carrega uma mensagem, tal como uma publicação. Na verdade é correto dizer que um software é uma publicação com características próprias, tem sua própria legislação e tudo mais que as publicações convencionais detém, incluindo direitos autorais. Na concepção e criação de um software existe uma intencionalidade do autor ou dos autores. Mesmo quando um software é apenas uma ferramenta e não trás ou carrega conteúdo puramente informativo, ainda assim ele reflete uma proposta e um conjunto de intenções, carrega uma mensagem.

Por sua natureza o meio sobre o qual um software é transportado é diferente daquele de uma publicação. Enquanto uma publicação tradicionalmente vem impressa em papel, um software vem gravado em discos magnéticos, em CD laser ou DVD, dentre outras mídias. Mas atentemos para o seguinte: software também não é, por si só, tecnologia educacional!

Talvez a esta altura o leitor possa estar intrigado e se perguntando: mas, afinal, o que é Tecnologia Educacional?

É claro que Tecnologia Educacional existe, mas não do modo como estamos habitualmente acostumados a considerá-la. Precisamos, primeiramente, afirmar o que não é Tecnologia Educacional, depois definir com maior precisão mídias e publicações impressas e software, ampliando e reformulando conceitos. Num domínio mais preciso, operacional e amplo este conceito deverá afetar significativamente a criação pedagógica e a atuação docente. Vamos agora para o último – e mais importante – dos elementos do processo de criação e utilização de tecnologias educacionais: a mediação.

Para podermos compreender bem o significado da mediação, tanto na criação quanto na aplicação de uma tecnologia educacional, vamos recorrer a alguns fatos históricos. A História nos ajudará nesta caminhada. Até o final do século XIX e início do XX, as metodologias de ensino se apoiavam essencialmente no discurso do professor (não nos assombremos se isto nos parecer tão atual e familiar...). A cátedra era o assento docente, uma posição de poder na hierarquia educacional, e o púlpito o nobre local de onde o educador professava suas aulas.

Notemos bem: a prática pedagógica valorizava uma mediação essencialmente discursiva do professor.

A chegada de uma nova mídia, no final do século XIX, pregada ou simplesmente pintada na parede, em tom negro ou verde, representava uma verdadeira heresia institucional e profissional, uma vez que docente que se prezava não deveria, jamais, descer do púlpito e, muito menos ainda, aporrinhar-se com um incômodo pó branco, fruto de um riscar incessante e irritante de uma pedra sobre um toco de giz...

Pois bem: um século se passou e devemos nos perguntar: há um único docente neste planeta, que não esteja totalmente familiarizado como o uso da mídia lousa?

A lousa veio para ficar.

O papel discursivo do professor não se arrefeceu muito nas últimas décadas, é bem verdade, mas o suporte oferecido pela mídia lousa nunca mais foi abandonado. Há professores que realizam verdadeiras maravilhas empunhando um giz. Em geral os professores de Biologia se esmeram em suas construções de células, tecidos e outros sistemas vitais; os de Matemática se sentiriam limitadíssimos sem contar com o apoio do quadro-negro; os de História não teriam como esboçar seus mapas, linhas do tempo e questões de verificação; os de física, querem em geral transformá-lo no laboratório que não possuem e os de Português e Língua Estrangeira, para parar por aqui, não se limitariam ao idioma falado. O quadro-negro chegou e foi sendo incorporado, definitivamente, como a mais importante mídia escolar do século XX. Nenhuma outra mídia que se tenha história ocupou um lugar de destaque tão notável, por tempo tão longo e com utilização praticamente universal, como o quadro-negro e seus sinônimos.

Ao acompanharmos a história da mídia quadro-negro  podemos evidenciar uma das principais referências que temos, na construção do conceito de tecnologia educacional. A mera existência do quadro-negro não significou que o mesmo foi prontamente incorporado ao universo escolar; pelo contrário, houve muita resistência de início à sua utilização, pois mudar uma mídia já existente (comunicação estritamente oral!) significava alterar os modos de mediação e intervenção do professor. Há diferenças fundamentais quanto à natureza dos processos pedagógicos que incluam ou não o quadro-negro. As atitudes dos docentes – principalmente estas – são muito diferentes em cada circunstância.

Imaginemos, só para fazer uma ideia mais precisa do que queremos evidenciar, que amanhã, ao chegar à escola e irmos para a sala de aula, não encontrássemos mais a lousa instalada. E nenhum giz à disposição, nem mesmo apagador. O que significaria isso para a nossa conduta de aula, na prática? Como isto afetaria os nossos modos de ação, mediação e intervenção pedagógica?


O professor é o mediador, aquele que intervém no processo educativo.


O professor acostumado a proferir suas aulas de modo frequentemente expositivo tendo por mídia de apoio somente o quadro-negro pode estranhar o termo mediador. Mesmo estranhando, suas intervenções e ações de informar contam com o suporte de determinadas mídias e publicações.

Como o exemplo histórico nos pode mostrar, a simples chegada de uma mídia, como o quadro-negro, não significou sua imediata incorporação como elemento do processo educacional. Foi preciso que alguns docentes, de início, se entusiasmassem, experimentassem e criassem novas aplicações, utilizando-se delas nas aulas para que ao longo do tempo a incorporação efetiva do quadro-negro se desse. Há claramente aqui vistas para um processo de criação, de incorporação e de disseminação do uso do quadro-negro como mídia educacional.

Durante determinados períodos as publicações, que serviam de base para os processos educativos, permaneciam praticamente as mesmas sem sofrerem alterações significativas. No entanto a forma do agir pedagógico estava se alterando, significativamente, com o advento do quadro-negro incorporado como mídia em sala de aula. Decisivamente as ações pedagógicas estavam sofrendo uma alteração singular: se antes o professor se comunicava utilizando-se apenas de símbolos verbais, mídia verbal, apenas como orador, agora ele passava a incorporar uma nova forma de comunicação, mais abrangente, que incluía símbolos visuais, facilitando a comunicação e enriquecendo os processos educacionais.

Vemos neste exemplo histórico, estudado, que não foi simplesmente a colocação do quadro-negro na sala de aula que alterou a forma das soluções – tecnologias – educacionais.

Foi, juntamente com as mídias disponíveis e as publicações de cada época, a forma de atuação, de mediação, de intervenção, enfim, as decisões tomadas pelos professores e educadores na construção e condução de suas aulas que configuraram outras inúmeras possibilidades de tecnologias educacionais.

Temos aqui o exemplo que utilizamos como chave para organizar o conceito de tecnologia educacional que viemos construindo desde o início deste passo. Agora podemos apresentar, numa aproximação conceitual, um esquema que ajudará a organizar ainda melhor a ideia.



Como podemos inferir, o conceito de Tecnologia Educacional encerra um paradigma complexo, envolvendo pelos menos três pilares estruturais: Mídias, Mediação e Publicações. 

De fato alterações substanciais em uma dada Tecnologia Educacional ocorrem na medida que a incorporação efetiva de mídias e publicações acontecem por ação mediada. Nesta perspectiva a inserção de novas mídias dedicadas a educação pode trazer ressignificados conceituais e operacionais pedagógicos, pressupondo a tomada de consciência dos mediadores, contando com suas competências e habilidades para a gestão dos processos de ensino-aprendizagem.

Tecnologia Educacional, portanto, é mais do que um conceito recorrente: representa, a cada momento, no tempo histórico, a complexidade dos processos pedagógicos, na esteira da tomada de decisão de seus gestores.
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BACHELARD, G. O novo espírito científico. Editora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro. 1968
CUNHA, A. G. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Editora Nova Fronteira. São Paulo, 1982.

Fonte: Direcional Educador. Acesso em: 14 fev. 2014.

* Cassiano Zeferino de Carvalho Neto é doutor com formação em Física, Ciência e Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é presidente do Instituto Galileo Galilei para a Educação (IGGE).

Maria Taís de Melo é mestra em Psicologia e doutora em Mídia e Conhecimento pelo programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina, e professora da Univale, no mesmo estado.