Por JOSÉ MANUEL MORAN*
Introdução[1]
Estamos deslumbrados com o computador e a Internet na escola
e vamos deixando de lado a televisão e o vídeo, como se já estivessem
ultrapassados, não fossem mais tão importantes ou como se já dominássemos suas
linguagens e sua utilização na educação.
A televisão, o cinema e o vídeo – os meios de comunicação
audiovisuais – desempenham, indiretamente, um papel educacional relevante.
Passam-nos continuamente informações, interpretadas; mostram-nos modelos de comportamento,
ensinam-nos linguagens coloquiais e multimídia e privilegiam alguns valores em
detrimento de outros.
A informação e a forma de ver o mundo predominantes no
Brasil provêm fundamentalmente da televisão. Ela alimenta e atualiza o universo
sensorial, afetivo e ético que crianças e jovens – e grande parte dos adultos – levam
a para sala de aula. Como a TV o faz de forma mais despretensiosa e sedutora, é
muito mais difícil para o educador contrapor uma visão mais crítica, um
universo mais abstrato, complexo e na contramão da maioria como a escola se
propõe a fazer.
A TV fala da vida, do presente, dos problemas afetivos – a
fala da escola é muito distante e intelectualizada – e fala de forma impactante
e sedutora – a escola, em geral, é mais cansativa. O que tentamos contrapor na sala
de aula, de forma desorganizada e monótona, aos modelos consumistas vigentes, a
televisão, o cinema, as revistas de variedades e muitas páginas da Internet o
desfazem nas horas seguintes. Nós mesmos como educadores e telespectadores
sentimos na pele a esquizofrenia das visões contraditórias de mundo e das
narrativas (formas de contar) tão diferentes dos meios de comunicação e da
escola.
Na procura desesperada pela audiência imediata, fiel e
universal, os meios de comunicação hiper-exploram nossas emoções, fantasias,
desejos, medos e aperfeiçoam continuamente estratégias e fórmulas de sedução
dependência. Passam com incrível facilidade do real para o imaginário,
aproximando-os em fórmulas integradoras, como nas telenovelas e nos
reality-shows como o Big-Brother e semelhantes.
Diante desse panorama, os educadores costumamos contrapor a
diferença de funções e da missão da televisão e da escola. A TV somente
entretém enquanto que a escola educa. Justamente porque a televisão não diz que
educa o faz de forma mais competente. Ela domina os códigos de comunicação e os
conteúdos significativos para cada grupo: os pesquisa, os aperfeiçoa, os
atualiza. Nós educadores fazemos pequenas adaptações, damos um verniz de
modernidade nas nossas aulas, mas fundamentalmente continuamos prendendo os
alunos pela força e os mantemos confinados em espaços barulhentos, sufocantes,
apertados e fazendo atividades pouco atraentes. Quem educa quem a longo prazo?
Como a televisão se comunica
Os meios de comunicação, principalmente a televisão,
desenvolvem formas sofisticadas multidimensionais de comunicação sensorial,
emocional e racional, superpondo linguagens e mensagens, que facilitam a interação,
com o público. A TV fala primeiro do "sentimento" – o que você sentiu", não o que você conheceu; as ideias estão embutidas na roupagem
sensorial, intuitiva e afetiva.
A televisão e o vídeo partem do concreto, do visível, do
imediato, próximo, que toca todos os sentidos.
Mexem com o corpo, com a pele, as sensações e os sentimentos – nos tocam e "tocamos" os outros, estão ao nosso alcance através dos
recortes visuais, do close, do som estéreo envolvente.
Isso nos dá pistas para começar na sala de aula pelo
sensorial, pelo afetivo, pelo que toca o aluno antes de falar de ideias, de
conceitos, de teorias. Partir do concreto para o abstrato, do imediato para o
mediato, da ação para a reflexão, da produção para a teorização.
A eficácia de
comunicação dos meios eletrônicos, em particular da televisão, se deve também à
capacidade de articulação, de superposição e de combinação de linguagens
diferentes – imagens, falas, música, escrita - com uma narrativa fluida, uma
lógica pouco delimitada, gêneros, conteúdos e limites éticos pouco precisos, o que
lhe permite alto grau de entropia, de flexibilidade, de adaptação à
concorrência, a novas situações. Num olhar distante tudo parece igual, tudo se
repete, tudo se copia; ao olhar mais de perto, por trás da fórmula conhecida,
há mil nuances, detalhes que introduzem variantes adaptadoras e
diferenciadoras.
A força da linguagem audiovisual está em que consegue dizer
muito mais do que captamos, chegar simultaneamente por muitos mais caminhos do
que conscientemente percebemos e encontra dentro de nós uma repercussão em
imagens básicas, centrais, simbólicas, arquetípicas, com as quais nos
identificamos ou que se relacionam conosco de alguma forma. [2]
Televisão e vídeo combinam a dimensão espacial com a
sinestésica, ritmos rápidos e lentos, narrativas de impacto e de relaxamento.
Combinam a comunicação sensorial com a audiovisual, a intuição com a lógica, a emoção
com a razão. A integração começa pelo sensorial, o emocional e o intuitivo,
para atingir posteriormente o racional. Exploram o voyeurismo, e mostram até a
exaustão planos, ângulos, replay de determinadas cenas, situações, pessoas,
grupos, enquanto ignoram a maior parte do que acontece no cotidiano. Mostram a
exceção, o inusitado, o chocante, o horripilante, mas também o terno – um bebê desamparado,
por exemplo. Destacam os que detêm atualmente algum poder – político, econômico
ou de identificação/projeção: artistas, modelos, ídolos esportivos. Quando o
perdem, desaparecem da tela.[3]
A organização da narrativa televisiva, das situações, ideias
e valores é muito mais flexível e contraditória do que a da escola. As
associações são feitas por semelhança, por contraste, muitas vezes estéticos.
As temáticas evoluem de acordo com o momento, a audiência, o impacto.
Os temas são pouco aprofundados, explorando os ângulos
emocionais, contraditórios, inesperados. Passam a informação em pequenas doses
(de forma compactada), organizadas em forma de mosaico (rápidas sínteses de
cada assunto) e com apresentação variada (cada tema dura pouco e é ilustrado).
A televisão estabelece uma conexão aparentemente lógica
entre mostrar e demonstrar. Mostrar é igual a demonstrar, a provar, a
comprovar. Uma situação isolada converte-se em situação paradigmática, padrão, universal.
Ao mesmo tempo, o não mostrar equivale a não existir, a não acontecer. O que
não se vê, perde existência.[4]
Estratégias de utilização da TV e do vídeo
Diante dessas linguagens tão sofisticadas a escola pode
partir delas, conhecê-las, ter materiais audiovisuais mais próximos da
sensibilidade dos alunos. Gravar materiais da TV Escola, alguns dos canais
comerciais, dos canais da TV a cabo ou por satélite e planejar estratégias de
inserir esses materiais e atividades que sejam dinâmicas, interessantes,
mobilizadoras e significativas.[5]
A televisão e a Internet não são somente tecnologias de
apoio às aulas, são mídias, meios de comunicação. Podemos analisá-las, dominar
suas linguagens e produzir, divulgar o que fazemos. Podemos incentivar que os
alunos filmem, apresentem suas pesquisas em vídeo, em CD ou em páginas WEB -
páginas na Internet. E depois analisar as produções dos alunos e a partir delas
ampliar a reflexão teórica.
A escola precisa observar o que está acontecendo nos meios
de comunicação e mostrá-lo na sala de aula, discutindo-o com os alunos,
ajudando-os a que percebam os aspectos positivos e negativos das abordagens sobre
cada assunto. Fazer re-leituras de alguns programas em cada área do
conhecimento, partindo da visão que os alunos têm, e ajudá-los a avançar de
forma suave, sem imposições nem maniqueísmos (bem x mal).[6]
Conclusão
A televisão, o cinema, a Internet e demais tecnologias nos
ajudam a realizar o que já fazemos ou que desejamos. Se somos pessoas abertas,
nos ajudam a comunicar-nos de forma mais confiante, carinhosa e confiante; se
somos fechadas, contribuem para aumentar as formas de controle. Se temos
propostas inovadoras, facilitam a mudança.
Educar com novas tecnologias é um desafio que até agora não
foi enfrentado com profundidade. Temos feito apenas adaptações, pequenas
mudanças. Agora, na escola, no trabalho e em casa, podemos aprender continuamente,
de forma flexível, reunidos numa sala ou distantes geograficamente, mas
conectados através de redes de televisão e da Internet. O presencial se torna
mais virtual e a educação a distância se torna mais presencial. Os encontros em
um mesmo espaço físico se combinam com os encontros virtuais, a distância, através
da Internet e da televisão.
Estamos aprendendo, fazendo. Os modelos de educação
tradicional não nos servem mais. Por isso é importante experimentar algo novo
em cada semestre. Fazer as experiências possíveis nas nossas condições concretas.
Perguntar-nos no começo de cada semestre: “O que estou fazendo de diferente
neste curso? O que vou propor e avaliar de forma inovadora?” Assim, pouco a
pouco iremos avançando e mudando.
Podemos começar por formas de utilização das novas
tecnologias mais simples e ir assumindo atividades mais complexas.
Experimentar, avaliar e experimentar novamente é a chave para a inovação e a
mudança desejadas e necessárias.
Caminhamos para uma flexibilização forte de cursos, tempos,
espaços, gerenciamento, interação, metodologias, tecnologias, avaliação. Isso
nos obriga a experimentar pessoal e institucionalmente a integração de
tecnologias audiovisuais, telemáticas (Internet) e impressas.
Vivemos uma época de grandes desafios no ensino focado na
aprendizagem. E vale a pena pesquisar novos caminhos de integração do humano e
do tecnológico; do sensorial, emocional, racional e do ético; do presencial e
do virtual; de integração da escola, do trabalho e da vida.
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[1] Texto de apoio ao programa Salto para o Futuro da TV
Escola no módulo TV na Escola e os Desafios de Hoje. no dia 25/06/2002.
Disponível em <http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/tedh/tedhtxt2b.htm2>
[2] Um livro importante para entender as linguagens e formas
de utilização do vídeo é o de Joan FERRÉS. Vídeo e Educação. 2a ed., Porto
Alegre, Artes Médicas, 1996.
[3] Maiores informações em MACHADO, Arlindo. A arte do
vídeo. São Paulo, Brasiliense, 1988.
[4] Para entender as mudanças da cultura audiovisual,
recomendo o livro Os novos modos de compreender de Pierre BABIN e Marie
KOULOUMDJIAN. São Paulo, Paulinas, 1989.
[5] No meu artigo O vídeo na sala de aula apresento algumas
situações e formas de utilizar o vídeo. Pode ser acessado em
www.eca.usp.br/prof/moran/vidsal.htm
[6] A utilização inovadora da televisão, Internet e outras
tecnologias na educação pode ser aprofundada no livro Novas Tecnologias e
Mediação Pedagógica de MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda.
12 a ed., Campinas, Papirus, 2006.
Fonte: Tecnologias na Educação | Educação Humanista Inovadora. Acesso em: 8 abr. 2015.
*José Manuel Moran
é especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância.