sexta-feira, 13 de março de 2015

Guiomar de Grammont: Ler devia ser proibido

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Por GUIOMAR DE GRAMMONT*

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem necessariamente ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas.

É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, podem levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, podem estimular um curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos, em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um. Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos. Para obedecer, não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submisso. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Alem disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.


*Guiomar de Grammont é mineira de Ouro Preto, historiadora, filósofa e escritora. Já publicou contos, antologias, livros sobre historiografia e o romance A casa dos espelhos.
_____________________________________________
Fonte: Trecho do livro, PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp. 71-3.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Utilizando o Blog como Webfólio

por MARY GRACE MARTINS e MÁRCIO ZENKER*

Blog vem da abreviação de Weblog: web (tecido, teia, Internet) e log (diário de bordo). É um recurso que possibilita publicar textos, imagens e em alguns casos até mesmo áudio e vídeo. Cada publicação realizada é chamada de post.

Uma das principais características e que o torna colaborativo é o espaço para comentário dos participantes. Alguns blogs disponibilizam também o recurso de trackback, uma tecnologia que busca e publica no blog do usuário as referências realizadas em outros blogs ao seu post. Estes recursos são de fundamental importância para os “blogueiros”(como são chamados os criadores de blogs) pois revela o que os visitantes acham de sua página.

Para Gutierrez (2003, on-line) um aspecto importante que difere os blogs de sites comuns é justamente a “ facilidade com que podem ser criados, editados e publicados, sem a necessidade de conhecimentos técnicos especializados.”

Há também a possibilidade de criação de blog colaborativo. Ainda que a maioria dos serviços tenha sido pensada para produções individuais, é possível inscrever mais de um aluno ou até mesmo a turma toda em um mesmo blog.

Dentre as diversas razões para trabalharmos com estes recursos na educação, destacamos as seguintes:
  • Os alunos percebem que podem produzir algo que será disponibilizado para qualquer pessoa, assim como tem feito alguns artistas, jornalistas e outros profissionais famosos;
  • Possibilita um trabalho interdisciplinar;
  • Integra o ensino, aprendizagem e avaliação;
  • Propicia uma visão holística (relação parte e todo);
  • Incentiva o aluno a refletir sobre o seu próprio trabalho;
  • Permite que alunos e professores tenham dimensão do processo de construção e aprendizagem;
  • Melhora a auto-estima dos alunos;
  • Incentiva os alunos a valorizarem e divulgarem sua produção;
  • Desenvolve habilidades de leitura, escrita, análise e síntese;
  • Não é uma atividade exclusivamente escolar, o que a torna ainda mais interessante para os alunos;
  • Os pais podem ter acesso e dessa forma passam a valorizar mais o que os filhos fazem na escola.
Após conhecer alguns blogs, recursos e possibilidades o professor pode optar por diferentes formas de trabalho:
  • Cada aluno pode ser incentivado a manter o seu blog pessoal e periodicamente ter um tempo disponibilizado pelo professor, para que possa atualizá-lo;
  • Os alunos podem criar e manter um blog individual ou coletivo sobre um determinado tema/projeto;
  • Cada turma pode ter um blog e a cada semana um responsável atualiza, registrando o que for mais significativo para o grupo.
Caso os alunos tenham seus blogs pessoais, é importante que o educador dê liberdade para que publiquem também assuntos que não estão diretamente relacionados à escola, uma vez que os blogs também têm essa característica informal.

Periodicamente esses blogs poderão ser utilizados para avaliação conjunta do processo. Esse exercício é importante para que alunos e educadores reflitam sobre seus objetivos e metas para continuidade do(s) projeto(s) propostos.
  • Alunos podem reunir-se em pequenos grupos, explorar as produções dos colegas, levantar questões e comentários a respeito de suas produções, opiniões ou atividades desenvolvidas;
  • Professores podem lançar debates coletivos buscando compreender tanto as necessidades levantadas pelos alunos, quanto suas sugestões para melhoria e continuidade do projeto;
  • As reflexões e debates realizados em sala de aula ou por meio das ferramentas de comunicação dos blogs, podem ser sintetizadas para um debate também com outros educadores. Em parceria, os professores também conseguirão soluções para aperfeiçoar sua prática pedagógica.
Combinar os debates coletivos e/ou em pequenos grupos em sala de aula com o registro de comentários e até mesmo listas de discussão, contribuirá não apenas para garantir a participação de todos os alunos, mas como uma forma de propiciar um momento ainda mais reflexivo de cada aluno com sua própria produção e também com a produção de seus parceiros.

Essa forma de trabalho não diminui a importância do professor, que deve ser o principal mediador no processo de aprendizagem, no entanto, possibilita que os alunos percebam que também é possível ir em busca do próprio conhecimento e aprender com os colegas, por meio da colaboração e não apenas com o professor.

Quando os alunos utilizam a Internet para publicar suas produções, além de socializar o conhecimento descoberto e desta forma sentirem-se mais valorizados, possibilitam que seus educadores tenham acesso aos projetos desenvolvidos.
_______________________________________________
BERTOCHI, Sonia. Webfólio: o portfólio da era digital. Portal Educarede, 2004. Disponível em http://www.educarede.org.br 
DUTRA, Í. M.; LACERDA, Rosália Procasko. Tecnologias na Escola: algumas experiências e possibilidades. Renote Revista Novas Tecnologias na Educação, Porto Alegre-RS, v. 1, n. 1, 2003. Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/renote/fev2003/artigos/italo_tecnologias.pdf 
GUTIERREZ, Suzana. Weblogs e educação: contribuição para a construção de uma teoria. Revista Novas Tecnologias na Educação - Renote. Porto Alegre: CINTED-UFRGS, v. 3, n. 1, mai. 2005. Disponível em: http://www.cinted.ufrgs.br/renote/maio2005/artigos/a15_welogs.pdf.
HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura Visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre : Artmed, 2000
MORAN, José Manual. As possibilidades das redes de aprendizagem. ECA/USP, 2005. Disponível em: http://www.eca.usp.br/prof/moran/ 
SHORES, Elizabeth; GRACE, Cathy. Manual de Portfólio: Um guia passo a passo para o professor. Porto Alegre. Artes Médicas, 2000.

Fonte: Direcional Educador. Acesso em: 5 mar. 2015.

* Mary Grace Martins é pedagoga pela Faculdade de Educação da USP, atua na área de formação de professores para uso da tecnologia e ensino à distância. É consultora pedagógica do Instituto Crescer para a Cidadania e também da Microsoft Educação. 

Márcio Zenker é psicólogo pela USP com pós-graduação em Recursos Humanos pela FGV. Foi professor da FGV em Psicologia Aplicada. É professor de graduação, MBAs e Pós-Graduação da UNISA, UNASP, UniFEI e SENAC.